Depois de debater aqui a beleza e a sua falta de consenso, eis que dou de caras com uma fotografia da Monica Bellucci. Linda de morrer, com um corpo magnífico, bem capaz de ser o espécime feminino mais perto da perfeição que já vi. Já ouvi homens menosprezar a beleza consensual apenas por isto, sentir necessidade de ir buscar ao um catálogo desconhecido amostras de beleza discutível cujo único mérito é não ser óbvia. Já vi mulheres fazer o mesmo, mas de forma diferente. Os homens que apreciamos têm sempre estilos muito diferentes, mesmo entre amigas que se vestem e penteiam da mesma maneira. Conseguimos usar o mesmo bikini, mas depois achamos piada a homens diferentes (ou sou eu que tenho uma sorte enorme com as amigas, nunca coincidimos). Não vejo menos mérito na beleza óbvia, sim, ela está ali e nem se esforçou para isso. Mas desprezar qualquer coisa só porque ela apareceu sem trabalho é fruto de alguma herança religiosa do passado. Actualmente já podemos julgar as coisas pelo seu valor, ou não?
Um amigo disse-me um dia que a maior parte da educação sentimental dele foi feita a partir de música lamechas. A minha há-de ter sido feita a partir de filmes dos anos 80. Depois onde é que a coisa descambou já não sei precisar.
E foram logo dois, em dois posts seguidos. Tendo sido apropriadamente corrigidos (sim, eu agradeço que me corrijam), devem lá estar registados nos feeds para sempre. A considerar se devo tirar os feeds, registo eterno dos meus pontapés na gramática.
pelo esclarecimento. Eu não lia, agora serei tentada a fazê-lo. Ou não. A minha paciência quando se esgota raramente volta. É pessoal, claro, o ermita congratular-se-à com isso.
Uma foto captura um momento. Só que, por vezes, um momento encenado. Outras ainda, quando nem a encenação é suficiente, a fotografia é composta. Um momento é composto. Quantos momentos foram compostos na nossa memória? Agora que queremos mesmo apagar pedaços traumatizantes, porque não podermos adicionar outros: reconfortantes, elecrizantes, fascinantes? Poderemos um dia tratar a memória como um pedaço plástico e moldável, esquecendo o que não queremos mais lembrar, lembrando o que nunca nos aconteceu mas que nos teria feito felizes se tivesse acontecido?
- É tão bonita, a mana, não é? - Sim. - Achas mesmo - Tom de absoluta surpresa, assumi que ele diria "não, é parvalhona" - a cara, é bonita? - Não. Nas roupas que ela veste.
Tão pequenino e com tanta noção de estilo. Meu rico filho.
Eu acho que não. Digo a toda a gente que não. Mas por dentro, há uma parte de mim que acredita que sim. Eu prezo mais esta parte do que qualquer outra. É ela que me faz sentir viva.
- O que é que o professor disse sobre mim? - Que tu lês mal, não fazes os exercícios de Matemática, só fazes disparates nas aulas... - Oh, vá lá, a sério. - Não disse nada, eu não perguntei. Só as mães que tinham dúvidas é que fizeram essas perguntas. - E o computador? Aquilo é tão manhoso... - Ainda não é para já. É para o avô, se ele quiser. - Não. É para mim. - Tens um computador no quarto, precisas de mais? - Sim, queria um portátil. - Também eu queria. O meu está a dar o berro. - Gostava era daquele da maçã.
Tem certamente a ver com ter acabado de ler "Um quarto com vista para a cidade" que concluo, nem todas as mudanças que impomos uns aos outros em sociedade resultam bem. Tudo era bem mais simples quando todos os lugares a ocupar estavam bem demarcados. Pouca mobilidade, opções reduzidas, mas sem dúvida segurança. Sempre achei que demasiadas opções confundem mais do que ajudam. Mas admito que possa ser uma questão muito pessoal.
o conceito why bother em larga escala, aplicado a todos os canais sem excepção. Só os velhos, doentes e crianças pequenas é que estão em casa a esta hora, não vale a pena fazer programas para isto.
("as famílias portuguesas estão quase em falência técnica" tem de ser a melhor frase que ouvi nos últimos tempos. Aquilo terá teleponto?)
e ontem ao lanche queixei-me ao meu amigo. Eu não preciso de férias. Precisava de não ter insónia crónica e cavalgante, não faço ideia de quando dormi a última noite seguida. Então, e porque a vida tem estas porcarias cada vez que abrimos a boca, ele aparece-me do pai a arder em febre, eu imagino-me a levá-lo ao médico de manhã e a passarmos o resto do dia muito sossegados, em sestas, a ver televisão, sem fazer nada. Imagino, porque depois (e porque a vida tem sempre estas merdas, agora em vernáculo) passo a manhã em salas de espera, os dois com uma neura terrível, chegamos a casa e eu tenho que trabalhar e ele só chora, quer por força que eu jogue na consola dele o jogo que não consegue, eu com um artigo para fazer e ele aos berros, à hora do almoço o telefone a tocar e mais um folheto para fazer (nem instalei ainda as fontes, estive a fazer douradinhos), e agora também não consigo instalar porque tenho de ler todas (todas) as instruções do jogo do MacQueen, os mails estão a cair e será certamente mais trabalho, mas tenho-o a respirar em cima de mim mãe por favor, joga comigo e tenho tanto sono, sim, sim, mais valia ter ido trabalhar.
o meu Amigo disse-me, em tom de confissão, "Os homens gostam é que não lhes liguem nenhuma". Não era propriamente novidade e respondi-lhe que também nós, afinal somos todos, e mais parecidos uns com os outros do que queremos admitir.
É por isso, porque quero que me deixes em paz de vez, que te vou encher a caixa de mails de mensagens fofas, que te atrofio o telemóvel com sms ridículas, que te ligo sabendo que não atendes para deixar a minha voz aos sussurros no teu voice mail, que espero à porta do teu prédio e te persigo pela rua até à pastelaria onde tomas o pequeno almoço, que encho os teus posts de comentários desapropriados, que não paro de fazer piscar a tua janela de messenger com palavras indecentes ao longo do dia, que espero pela hora em que sais para ir ao café e, à frente dos teus colegas, te faço uma cena de ciúmes de qualquer coisa que não tenho. E é por isso que tiro da gaveta a cópia da tua chave que não cheguei a devolver e te espero sentada no sofá às escuras até de manhã, que enfio na mala do teu portátil post its com frases copiadas de livros manhosos, que deixo debaixo da tua almofada fotografias nossas de outros tempos, que te acordo a meio da noite com toques de campaínha.
Por duetos de voz feminina/masculina. Não sei a razão, terá certamente raízes profundas na minha infância, é provável que o Freud conseguisse explicar, eu não consigo. Em minha defesa, devo dizer que sempre fui assim, portanto será genético (adoro esta desculpinha da treta que serve para tudo). Qualquer dia o Tony Carreira faz um dueto com a Micaela e eu fico altamente tocada pela coisa, eis-me a publicá-la no blog e a cantarolá-la no carro. Be afraid, be very afraid.
que me escapa completamente ao entendimento, faz parte do meu job description (e de todos aqui na empresa) fazer dog-sitting a um cão. Regra geral o cão tem uma sitter fixa. No entanto, na ausência desta, cabe-me a mim o papel. Ora eu não entendo nada de cães, não fui criada perto de animais, e hoje esta falta de entendimento fez com que eu me visse forçada a apanhar dejectos do cão à porta de um café. Acho que mereço um aumento. Ou no mínimo um dia de férias, à laia de compensação.
da MFM. Já tinha gostado quando li o Bilhete de Identidade e gostei ainda mais ao ler a entrevista. Identifico-me com ela em tanta coisa. O que é capaz de fazer de mim uma espécie de intelectualóide (por muito que queira negar).
que não compreendo mas aprecio, os meus almoços de família são na Gulbenkian, a um Sábado ou Domingo. Este Sábado, o momento alto foi quando a minha avó viu finalmente o alargador da minha irmã ("que coisa tão estúpida foste fazer"). Foi moderada, parece-me.
Às quatro da manhã os bares da Bica estão fechados e os do Bairro Alto já deram o que tinham a dar. Aborrecidinha, resolvi devolver a insónia a quem tanto se aplicou a oferecer-ma, várias vezes. Não resultou, óbvio. Não recebi uma mensagem bem disposta em troca, foram duas. Estamos mal quando nem uma vingançazinha da treta consigo levar até ao fim. (lembro-me agora que tenho um fraquinho por homens que guiam só com uma mão. Nada original, portanto, gostar de bad boys).
ao ler o post, responde qualquer coisa como, that's why you date me, mas é preciso que se diga que não, que o nosso desafio é sermos demasiado amigos para termos dates ou merdices entre nós, mesmo quando bebemos demasiado vinho tinto.
mais do que ser um desafio (quero/não quero, quero mas só se..., gosto/não gosto, apetece-me/não me apetece, preciso/estou farta), gostava de ter um desafio (quero/não quero, quero mas só se..., gosto/não gosto, apetece-me/não me apetece, preciso/estou farta).
Vês que passou mais de um ano desde a última vez que nos vimos. É verdade que a saudade se dissipou, como sempre acontece quando nos deixamos enredar pelo dia-a-dia (e isso é sempre, não é?). Também já te tinha dito que não sou pessoa de grandes gestos, até estes ínfimos me são custosos, mesmo sabendo que não me lês, mesmo sabendo que não queres saber. Só para te dizer que não, não me esqueci. E que se há alguém que levo comigo para a eternidade, és tu.
Um amigo queixa-se que sempre que o sexo se torna bom, elas apaixonam-se e perde a piada, outro gaba-se das conquistas sexuais que atinge agora em divorciado, outro fala-me dos islandeses, outro ainda queixa-se de não ter sexo há demasiado tempo. A minha amiga evita ter sexo para não se apaixonar e pede descrições detalhadas das relações dos outros. À mesa do almoço debatemos o número de orifícios corporais. Passamos tanto tempo a falar de sexo que seria uma espécie de milagre se sobrasse algum para fazê-lo.
quase por obrigação, há dias assim. As palavras estão-me engasgadas, quase me sufocam, mas parecem não querer tomar a forma certa de um texto, de qualquer coisa legível. Passei a semana anterior num estado sobre-humano, sem fome, sem sono, sem cansaço. O absurdo sob a forma de uma receita médica e, parecendo perfeito, viver sem necessidades, é completamente desprovido de sentido, de humanidade. O meu blog fez dois anos na sexta e nem dei por isso. Sou pouco dada a datas e comemorações, mas por alguma razão elas ficam-me gravadas e perseguem-me quase só quando não as quero lembrar. Por isso o fim de semana passou por mim sem dar por ele, apanhei um escaldão na praia porque não me lembrei que o tempo passava, falhei uma festa porque não me apercebi que perdia qualquer coisa (desculpa). Do tempo que passou, não recupero o que perdi.
não lido bem com o passado, não sou resolvida e quero mais é que tudo volte a ser como era. Quero voltar a ser pequena e chorar porque detesto o colégio onde as empregadas nos enxovalham pela farda incompleta, onde mastigo plasticina e cheira a chão encerado. Quero voltar à preparatória para esconder o olhar dos fetos de cavalos mortos e em formol dos corredores. Quero voltar ao liceu e aos cigarros fumados em cima das árvores, aos toques para o intervalo e a saltar por cima do muro para entrar na lateral. Quero entrar na primeira faculdade, voltar a sair, entrar na segunda, chumbar dois anos, entrar na terceira. Voltar a engravidar da minha filha e passeá-la nos corredores da faculdade, ter o meu primeiro estágio, primeiro emprego, segundo, terceiro, quarto, deixar de trabalhar, ter a minha primeira casa mesmo minha (nossa), entrar com a minha filha no primeiro colégio (com a farda completa). Quero tudo de volta mesmo sabendo que na verdade não quero. Que era infeliz e mudei por isso, ou mudaram as coisas apenas porque não poderiam ficar iguais. Mas. Quero.
Como eu, vejo pessoas a arrastar-se de volta ao trabalho. Não sei se sentem (como eu) que de repente há pessoas e carros a mais por todo o lado, que é preciso andar às voltas para estacionar, parar em todas as passadeiras e muitas vezes a meio da estrada para deixar atravessar, que há pessoas a conduzir bêbedas às 9 da manhã, em contra-mão, que é preciso fazer de novo o circuito das duas escolas antes do emprego e custa, ainda estou a caminho e já tenho dores nos músculos dos ombros e quero fugir de novo para um refúgio qualquer.