não gosto do sítio onde trabalho. não gosto particularmente do que faço [agora]. sou mal paga. tenho um contrato que é uma anedota. estou há mais de uma semana completamente sozinha no escritório. entro à hora, saio para almoçar à hora, chego do almoço à hora e saio, na melhor das hipóteses, uma hora mais tarde do que a minha hora de saída. isto não é dedicação. é falta de auto estima.
a primeira vez que fui a Paris teria uns 20 anos. fui com o meu namorado, que mais tarde veio a ser meu marido. foi o pleno, Paris, romance e essas tretas todas. adoro Paris mas não viveria lá nem que me pagassem. há certas coisas [tantas] que são assim mesmo - maravilhosas - para outros. ou maravilhosas - temporariamente.
gosto muito do casablanca [fotografia fabulosa] mas a história de amor não me convence. ou convence mas é só mais uma história de amor não concretizado. e por não concretizado aqui significa que eles não tiveram essa experiência de amor diário desgastado pelo choro das crianças a meio da noite, das meias por apanhar no meio do quarto, das cedências que não apetece fazer, dos sítios onde se vai sem vontade. e é tão perfeito o amor assim, sem maçadas. perfeito e fácil por não existir senão na nossa imaginação.
we'll always have paris o caraças, mal me lembro de paris que já foi há cem anos e numa outra vida. para a Ilsa e para o Rick também foi assim a seguir ao fim do filme - tenho a certeza.
escrevo às vezes posts que são como recados para o [meu] futuro. posts que provavelmente ninguém entende mas que eu escrevo para que num dia de tédio ou desespero total [que é quando releio esta coisa] possa pensar "ah, nesta altura eu estava assim e agora já passou tudo". o meu blog tem estes retalhos de memória afectiva porque eu sofro muito de uma péssima memória. e agora descobri um muito recente que não faço ideia a que se refere. não sei o que fazer com aquilo.
a modernidade aborrece-me. não gosto de termos como:
inteligência emocional politicamente correcto consciência ecologica disponibilidade emocional corrupção moral
de repente deixámos de ter confiança na humanidade e precisamos de impôr uns aos outros um código de conduta para comportamentos que são, apenas, educação. não só não resulta em pessoas que não a tiveram [à educação] como aborrece todas as outras.
nunca cessa de me surpreender como tantas vezes nossa imagem é bastante mais importante do que somos mesmo. mas o verdadeiro desafio é conseguir distinguir as duas coisas com clareza.
não deve ser por acaso que todos os filmes, séries, citações, livros que prefiro são aqueles em que se segue sempre em frente sem olhar para trás. costumava pensar que era mais uma prova da minha impaciência patológica mas agora já não penso.
olhando para trás conseguimos ver com tanta clareza quando a coisa se estragou. o dia o momento ou o acumular de pequenos momentos. podemos saber se a culpa foi nossa ou não mas primeiro é preciso que tudo já seja passado e já não tenha importância. e porque se trata de passado e não tem importância é por isso também irrelevante o momento a culpa o dia e o acumular de pequenos momentos. é por isso que a experiência não serve para muito, porque nem no futuro vamos poder usá-la - o que vier será forçosamente muito diferente. seremos assim velhos, um acumular de pequenas experiências aleatórias que não nos ensinaram a viver melhor e nenhum neto quer ouvir. idade sucks.
no meio de todas as crises - eu não estou em crise, lembrei-me apenas que no meio de todas as crises - há que saber escolher quem ouvir e quem não ouvir. porque um amigo não é necessariamente bom conselheiro por muito inteligente e amigo que seja, por muito bem que nos conheça. no meio de todas as crises - eu não estou em crise porque tenho cerca de 20 mini crises por dia é qualquer coisa como isto - tenho a sensação que ouvi a única pessoa que não me disse nada directamente.
de volta a casa - febre dores de barriga e de cabeça. veredicto do pai: dores de amor. veredicto da avó: coisas hormonais. o meu veredicto: poupem-me por favor, uma drama queen por lar já é mais do que suficiente.
parece que passou tanto tempo tendo sido apenas ontem que esta música deixou de ter importância. e é sempre assim, não é? passa tudo demasiado rápido tão rápido que nem deixa marcas e poucas memórias somos demasiado velhos para sentir como eramos capazes. a minha volta aqui é um pouco triste. mas não muito porque, como diz o joão, os sentimentos são a coisa mais volátil do mundo. [em sabática de outro tipo agora].
acho que nunca falei aqui dos problemas de comportamento da minha filha. a minha filha é a típica pré-adolescente de 10 anos [agora já com 11] marcas de tenis marcas de roupa telemóvel msn séries americanas na televisão. a minha filha é a típica pré adolescente eu sou melhor maior mais gira faço mais pinos e pontes do que os outros e também sou mais inteligente e por isso posso gozar com todos à minha volta. antes do meio do ano estava a receber chamadas da directora de turma com queixas de comportamento da criancinha. a meio do ano estava a ter reuniões com a directora de turma por causa do comportamento da criancinha. a dois terços do ano estava a receber recados que a criancinha tinha tido mau comportamento nas visitas de estudo e portanto estava proibida de voltar a ir a visitas de estudo. nas reuniões de pais falou-se num "grupo problemático de 5 ou 6 alunos" e claro, ela estava incluída. qualquer coisa que corra mal na sala. qualquer problema que exista com a turma são chamados esses 5 ou 6 alunos. se a culpa é sempre deles? não. mas é como se fosse porque estabeleceram essa fama para eles. para o mundo é como se fosse.
apercebo-me agora que estasopiniões, arremessadas - prenhes de raiva e de ódio - sobre qualquer coisa que não entendem, serviram apenas para estimular o fervor católico da maioria dos crentes que [praticamente todos os dias] se estão perfeitamente a borrifar para o que pensam os não-crentes do catolicismo. way to go, pessoas das causas fracturantes. assim chegamos lá. pelo desrespeito mutuo. pelo ódio.
não sou pós moderna e comovi-me com a imagem de Bento XVI a passar por mim na praça do município, janela do papamóvel completamente aberta e mão de fora a acenar como quem confia. temos pena não sou pós moderna, acredito em Jesus - o dos altares não o dos estádios - comovo-me em algumas missas e arrepio-me a olhar para altares em capelas. temos pena gosto de crianças mas nem por isso da obsessão com marcas de roupa, gadgets electrónicos, restaurantes fashion, discotecas da moda, ginásios. tenho um amigo que diz "somos tão egoístas, nós" e não quero acreditar porque já nos vi a não ser egoístas, não é sempre, se calhar nem na maior parte do tempo mas acredito que temos esse não-egoísmo dentro de nós e que é só questão de procurá-lo. encontramo-lo.
às vezes acho que tudo o que tenho em comum com ela [para além da condição de mãe solteira, que uma espécie de maldição dos tempos modernos] é a capacidade que temos de inventar pretextos para não mudar absolutamente nada. outras só acho que perdemos demasiado tempo com coisas que não são importantes. nunca saberei qual é a que pratico verdadeiramente. azarinho.
estupidez é quando estou a fazer uma pesquisa à procura de uma imagem específica pelo nome do equipamento e me aparece um pdf criado por mim do site da empresa. tipo "mãe, olhe, o google publicou-me um pdf e estava logo em cima na pesquisa". robots do google, you rock.
há de certeza um momento chave em que a idade já não nos deixa mentir mais. sabemos que estamos velhas quando nos ouvimos a dizer as mesmas palavras exactas que a nossa avó nos dizia quando éramos [verdadeiramente] novas. eu quando olho para estas fotografias só consigo pensar "porque raio estas miúdas tão giras fazem tanta questão de se vestir como maltrapilhas?". e acho mesmo que deviam ir todas para o man repeller.
mais uma vez quantidade não é sinónimo de qualidade [a repetir em mantra]. alguns que não estão comigo fazem-me tanta falta. outros absolutamente nenhuma. e talvez seja necessário perdê-los para perceber [em cada detalhe] quais são quais.
ter-me-hei esquecido de informar que este blog é meu e do Martim? que nos posts que escrevo e escolho publicar eu posso ser arrogante feia inteligente um estupor generosa bela snob a melhor em salto à vara uma mãe perfeita a pessoa com mais amigos do mundo escritora pintora cabeleireira modista intelectual consumidora de cupcakes que posso ser rainha viver numa barraca viajar todos os fins de semana para as seychelles? que posso escolher ler e responder a comentários ou apagá-los ter mail à vista e responder caso me enviem emails sobre o que escrevo ou pura e simplesmente apagá-los? e que vocês podem escolher lê-los, comentá-los, linká-los e tudo o resto que quiserem fazer com eles? as prerrogativas são essas.
aposto que destes até eu gostava. roubei-o à ervilhinha. o meu é [para mim] o mais bonito por ser o que não tem nada a mais do que o essencial. mas o dela é o melhor [adoro tarte de limão e merengue. a-do-ro].
hoje as escolas fecharam para que o ministério pudesse desempenhar este teatrinho. para o ano, quando a mesma escola for testar a minha filha e os outros da turma dela espero que não se esqueçam que esses alunos tiveram 50% das aulas previstas de português e inglês porque a professora [que é a mesma para as duas disciplinas] é portadora de uma doença crónica e escolheu não meter baixa médica. e que o director da escola e do agrupamento escolheu não substituir a professora por se tratarem de faltas justificadas. 50% de faltas justificadas. e que também respondeu aos pais que viram as crianças mais novas da escola terem um horário que as obriga a passar mais de 40 horas semanais dentro da instituição com um "alguém tinha de ser prejudicado". e eu não votei nestas coisas mas sou obrigada a levar com os critérios deles, temos pena, porque "alguém tem de ser prejudicado". ou o jorge de sena explica.
há por aqui [bloga] tantos desvios mentais que me sinto uma pessoa demasiado saudável. não destilo ódios. não tenho invejazinhas da escrita e da vida dos outros. nunca criei um inimigo aqui. não recebo hate mail nem hate coments. não uso o blog para me promover. não escrevo para engatar. não tenho esta coisa para mostrar que sou mais fabulosa-trabalho mais-tenho uma vida mais dura-os meus filhos são melhores-mais-bonitos-mais inteligentes-que sou mais fashion-que sou mais culta-que escrevo melhor-que poderia publicar livros-que conheço restaurantes-discotecas-hoteis mais in-que tenho mais amigos-que viajo mais.
passo demasiado tempo a mostrar que sou normal. serei normal?
[as melhores coisas são as que não podem ser descritas por palavras mas nos obrigam a usar todos os sentidos para as descobrir. como o mar. um beijo. um cheiro. uma música. o sol. a relva].
- na escola perguntam-me sempre se sou do sexto. - a sério? mas vestes dois números abaixo da tua idade... - dizem que falo de maneira esquisita. - isso é porque não conhecem a expressão intelectualoide.
[mea culpa, não a devia ter deixado ler tantos livros, agora é uma weirdo da escola].
alguém explique rapidamente à blogosfera que ter estilo não tem absolutamente nenhuma relação com o número de sapatos que temos no armário nem com estar vestido como as it girls manhosas [as gémeas atarracadinhas] que aparecem muito em algumas revistas. ter pescoço ajuda, a sério.