6.17.2008

Durante quanto tempo

isso esteve lá, mudo, calado, sossegado não sei. Duas semanas parece-me. À espera do dia em que o cansaço, a musica deprimente nos ouvidos, o livro a puxar para a tristeza. Desse dia em que a viagem era longa, interminável e o cansaço absurdo, em que o nervoso da partida tinha sido afogado pela carga de nervos de uma gritaria ao telefone, da absoluta injustiça, revolta, raiva transformada em lágrimas sentadas na camioneta.
De quanto tempo teria passado sem tudo isso, uma mágoa calada, funda, sem raiva nem explosões, sem lágrimas, com sonhos presentes a substituir tudo isso. Dos últimos dias, eram sempre últimos mesmo quando já se tinham passado anos desde que achámos que seriam os últimos. De quando me ía embora ("estás tão bonita", como a dizer um adeus final). De quando era pequena e o via a arranjar-se de manhã, a barba feita com um pincel grosso e lâminas, esfregar o corpo com álcool, vestir-se à janela ("o teu avô gosta de dar espectáculo", deve ter sido a única coisa que lhe herdei, o vestir-me à janela, como se o vidro não deixasse ver para dentro de casa).
O meu avô morreu da morte boa, da que nos deixa despedir-nos, quase a desejar que se vá para que não tenha de viver assim, sempre com dores, já sem vida possível.
O meu avô foi-se embora e despedimo-nos de todas as maneiras que é possível. Adeus, à pessoa que, (em conjunto com o meu pai) sabia mais do mundo. Adeus ao amor às bibliotecas e aos livros que partilhávamos desde sempre. Adeus às discussões acesas sobre política, às opiniões que nos dividiram e nos obrigaram a fazer respeitar a opinião contrária, a dos outros.
Adeus sempre, e nunca, espero-te nos sonhos do costume.

11 comments:

catarina campos said...

Beijo.

Anonymous said...

Abraço apertado.

Joana.

Cool Mum said...

Kiss

G_ticopei said...

Um beijo grande!

Ana said...

Beijinho muito grande.

Ana Paula said...

Um beijo grande.

Costinhas said...

beijinho.

pal said...

mais um meu... :*

cecília r. said...

tardio, mas um beijo também.

sem-se-ver said...

ainda mais tardio, mas beijo...

Di Napoli said...

Permite-me também um grande beijinho para ti, por ti e pelo teu Avô.
Sabes, também já "perdi" o único que conheci, mas levo-o "aqui dentro".
Lembro-me imensas vezes dele e, pelo que li, imagino que se vai passar o mesmo contigo. Ainda bem!

pessoas com extremo bom gosto