11.23.2006

Não deixava de ser uma grande ironia, pensava ele agora estendido na escuridão.
Que ele, que toda a vida tinha fugido da solidão acolhendo-se sempre no meio de multidões, ainda que para tal tivesse que suportar (a custo) os gritos estridentes das crianças mal educadas do centro comercial aos domingos.
Que agora estivesse ele aqui estendido sozinho, não sabendo bem por quanto tempo, supondo que fosse para sempre, deitado e sem conseguir mexer nenhuma parte do corpo mas com o cérebro estranhamente lúcido e activo.
Sentia os bichos a entrarem e sairem lentamente dos buracos do corpo, das entranhas. Não lhe causavam dor nem incomodas comichões (pois se as extremidades nervosas estavam mortas como o resto do seu corpo, como poderia sentir dor?), e no entanto sabia-os lá, "o caruncho" como lhes chamou, sendo que no caso a madeira era ele.
Tentava agora calcular quanto tempo demoraria até a carne desaparecer, depois os ossos, até ser pó, e se nessa altura (em que o cérebro estaria literalmente desfeito, transformado em energia orgânica) ainda teria pensamentos.
Lembrava-se ainda de pessoas que acreditavam em alma, em vida após a morte e em como ele, o céptico do costume, se tinha rido dessas ideias.
Pensava nisto do interior do caixão e também em se tudo aquilo não passava de um sonho. Apenas para concluir que, sonho ou não, essa era agora a realidade dele, a que tinha que viver e não seria por se descobrir num sonho que esta lhe custava menos.
Odiava a solidão e interrogou-se porquê.
Este homem achava as interrogações (sobretudo as interrogações interiores) uma pura perda de tempo. Mas tempo era tudo o que ele tinha agora e por isso podia interrogar-se.
Odiava a solidão talvez porque odiava ouvir-se, ter os pensamentos a ecoarem na cabeça de um lado para o outro como uma bola ténis a meio de um jogo. Era isso, não gostava de se ouvir. A conclusão desconcertou-o, toda a vida tinha achado que tinha um nível de auto-estima muito bom, acima da maioria com quem se cruzava.
Afinal descobria-se no meio de um sonho de morte, ou da sua morte mesmo.
O homem pensou em como isso era extremamente injusto porque depois morto de nada lhe servia descobrir-se.

5 comments:

100 nada said...

Mexes nos pesadelos mais inquietantes com este texto. AMEI.

Ana Sousa said...

Olha lá!! Muito bom!

Xana said...

Adorei!

pal said...

glup.

Cool Mum said...

Completamente Twilight Zone.
Gostei muito!

pessoas com extremo bom gosto