2.23.2009

Há um proverbio português lindo

como só os provérbios portugueses conseguem ser, cheios de fados e capazes de acabar com as ilusões de uma pessoa numa mera frase atirada ao acaso para o ar por alguém que não gosta lá assim muito de nós.
É esse provérbio o "filho és, pai serás" naquela do "tás armado em bom, vai ver como te fodes quando cá chegares". E, invariavelmente, bate certo.
É por isso que aos 9 anos a minha filha faz dramas Shakesperianos à mesa do jantar durante os quais me pede uma "faca do Ikea, das afiadas" para cortar os pulsos, em geral quando vem de casa do pai. Outras vezes faz o mesmo ao pai.
E eu "filha fui, mãe tenho de ser" vou engolindo e não sabendo lidar isto, vou fingindo que está tudo bem sem na verdade achar que está alguma coisa bem, assumindo que sim, a culpa é minha, que se dois anos volvidos do divorcio tudo ainda é tão doloroso e à pele para ela é porque "filha fui, bem me fodo agora", que se calhar a sucessão de erros que tem sido o meu percurso não abona em nada na saúde mental de duas crianças e "filha fui, ao menos que tivesse aprendido alguma coisa com isso", fazendo de conta que sei lidar com alguma coisa quando nem com as minhas coisas sei lidar só finjo que não estão lá e ignoro, quantas vezes ignorei as coisas deles se "filha fui, mãe me tornei" não poderia ser melhor mãe do que a péssima filha que fui, não há volta a dar.

6 comments:

Wolve said...

é por isso que se diz que "avó é mãe duas vezes". Da jeito ter a nossa mãe por perto quando não sabemos ser pais.

Sofia said...

Às vezes acho que são as crianças que dificultam cada vez mais a tarefa de ser pai/mãe.
Claro que estes (os pais) também contribuem para estas mudanças, mas, numa sociedade que anda a 200 km/h, eu pergunto como nós (Professores e Pais, principalmente) havemos de nos ir adaptando a este corropio de emoções, situções e contextos tão diferentes.
Pergunto eu, que não sou mãe mas vejo todos os dias os meus alunos a entrar na idade do armário cada vez mais cedo, a agirem estranhamente aos problemas e a utilizarem um vocabulário que em nada os ajuda.

PreDatado said...

E tem mesmo de ser do Ikea? Os putos agora estão mesmo modernaços. Os meus perguntavam-me se eu não tinha à mão o canivete que o avô cortava o toucinho e a côdea do casqueiro. Isto de ser pai de netos de alentejano tem das suas. Filho fui, toucinho comi. Dasse que troquei o provérbio todo.

Wolve said...

deixem-me acrescentar que aquilo que entra pelo "quadradinho" adentro todos os dias, não contribui em nada para uma educação saudavel. como professor sinto-o. quanto mais litoral, pior.

O diabo está nos detalhes said...

Curiosamente, toda a geração que enfrenta a geração a que deu a vida sofre da mesma angústia. Os nossos pais resolviam a coisa com porrada, nós preferimos por a família inteira em apoio psiquiátrico. Faz parte da infância colocar tudo em causa e desafiar a autoridade - compete aos adultos estabelecer limites e punir quem os atravesse. Ao contrário do que sói pensar-se as crianças precisam da segurança dada pela imposição de limites.

Clara said...

mas alguém acha mesmo que eu n imponho limites? acho que até imponho limites demais, sobretudo a ela.

sim, a televisão é uma merda, só nos lixa, os morangos com açucar foi a pior coisa que inventaram e devíamos processar a TVI.

os miudos são adolescentes cada vez mais cedo. há quem diga que é da alimentação, mas a minha filha alimenta-se mal, é magra e baixa.
após alguma consideração sobre o assunto apercebi-me que ela precisa é de mais atenção nossa (pais), mais tempo passado a ouvi-la, a "brincar" com ela. agora é arranjá-lo (tempo).

pessoas com extremo bom gosto