3.24.2009

A rapariga da esquerda




foto Paul Michael Hughes

Desde sempre eu quis ser a rapariga da esquerda. Fiz ballet em criança, muitos anos. Não tenho a certeza se foram muitos anos ou se só pareceram sê-lo. As aulas eram uma tortura de poses e gritos, da professora que implicava com tudo, desde a maneira como prendíamos os cabelo (se alguma farripa caía) à forma como o tornozelo não estava suficientemente rodado para fora e as costas não estavam suficientemente direitas. Eram a hora nazi em que só queríamos que a atenção da professora não se virasse para os laços mal apertados das sapatilhas ou para os braços que não estavam com o cotovelo apontado para baixo. A rapariga da esquerda não tería problemas com isso. Ela faria todos os movimentos bem e caso não os fizesse, emendá-los-ia com um sorriso doce, a sua auto estima seria suficiente para aguentar todas as críticas.
A rapariga da esquerda não tería faltas por mau comportamento nas aulas, nunca pegaria num cigarro, não beberia demasiado quando saísse à noite, não beijaria rapazes sem lhes decorar o nome, saberia que curso escolher e entraria nele à primeira, não engravidaria, desistiria, falharia, entraria em depressão, nunca estaria perdida numa cidade com duas crianças, não deixaria o marido (nem o namorado) por já não suportar, não ficaria sem nada no meio do nada. A rapariga da esquerda faria sempre as opções certas no momento perfeito e tudo fluiria sem grandes dramas.
Eu sempre fui a da direita.

9 comments:

Mad said...

Eu se fosse a da direita estava cheia de sorte - no que toca à aprovação da família, claro. Mas se fosse mesmo eu, estaria vestida de calças de ganga rasgadas e de tênis, no mínimo.

Andei num colégio de freiras. Não fiz ballet (credo!), mas ouvia as aulas. Era assim como dizes.

Jesus, do que me safei...

alf said...

A da esquerda é uma chata. Tudo nos trinques. Tudo direitinho. Tudo aborrecido. Sem interesse nenhum. Sem conteúdo. Sem vida. Sem profundidade. Bah, a da esquerda não a queria nem dada, mas a da direita, orgulho-me de a ter como amiga. Gajas assim, com fibra, há poucas.

alf, catarina campos

Mãe da malta said...

Interessante, Clara. Como nos conhecemos tao pouco, eu juraria que eras a da esquerda. A menina certinha, ainda bem que es a direita, mesmo com o drama toda inerente as da direita.

Beijinho e sorriso

Clara said...

:))

(mas eu queria muito ser a da esquerda. eu só seria feliz se fosse a da esquerda).

Mocas said...

tenho passado a vida aos saltos da esquerda para a direita e acho que será sempre assim.

por acaso a tua prof. de Ballet não era a Georgina, não?

ecila said...

Pois...e ainda bem que és!

Clara said...

mocas, a minha professora era a Vera Varela Cid (tive de ir perguntar à minha mãe e tudo.

ecila said...

Ao reparar melhor nas imagens vejo que a rapariga da esquerda está a subir um escadote, parece-me pronta para pôr as maos à obra (a julgar pelas madeiras e tubos a que ela tenta ter acesso), enquanto que a da direita deita-se num ambiente que me parece claustrofobico, inactivo, bem mais "nazi"... as coisas nao sao tao lineares como parecem à primeira vista. Pelas fotos identificar-me-ia com a da esquerda sem duvida, pela descricao nao.

Mocas said...

a georgina villasboas (GCP) era um terror ...

pessoas com extremo bom gosto