12.21.2009

Publi-felicidade

Beira-mar. Fim de um dia de sol. Salta um Labrador da traseira de uma carrinha Volvo e corre na direcção de duas crianças lindas. Salta mais e mais. As crianças abraçam-no, por entre risos de alegria. O pai apeia-se do banco do condutor. É moreno, bronzeado e muito bem parecido. Anda pelos 30 anos. Veste um consensual pólo e blusão de cabedal curto. Tem um olhar sólido, fixo na cena das crianças e do cão. A mãe junta-se-lhe. É louríssima, como uma das crianças. Magra e muito fininha. Mãos arranjadas. Sandálias simples e de bom gosto. Mãe e pai juntam-se às crianças. O Labrador salta e late à volta de todos, recortando o sol alaranjado que já enche o horizonte.

O que é isto? É a publicidade a um PPR. É a publi-felicidade.

Uma família. Tudo giro. Um cão a condizer. Uma carrinha.
Harmonia. E um PPR que protege aquela felicidade toda, como um anjo da guarda.O estereotipo vendido pela publi-felicidade corresponde ao ideal de muitos. Senão não seria eficaz. E são muitos os que replicam o modelo do pai perscrutador de horizontes, do cão saltador e da carrinha nas suas vidas.Pode dar-se o caso de o pai ser um filho da ** do pior e da magia já ter regressado à terra do Mago Merlin há anos. Mas a louríssima mãe tolera tudo. Umas vezes enfastiada. Outras esperançada. “Por causa dos filhos”. Por causa dos filhos? Não. Por causa de uma imagem. Porque aos domingos, mesmo que a semana tenha sido miserável, sobe ao palco a pequena encenação da publi-felicidade. No teatro de um restaurante. Quem sabe, de uma esplanada à beira-mar. Oxalá o Volvo não parta o turbo no regresso. O meu às vezes dava chatices. Porque raio temos de parecer todos felizes? E dizer que estamos sempre bem, sempre óptimos, quando nos perguntam? Por recato, em alguns casos. Mas porque a publi-felicidade se arvorou em ideal social, em muitos outros casos. E se uma pessoa se revela menos feliz, macambúzia, pensativa, preocupada, sei lá, ai, cuidado, coitada, pode estar deprimida. Que horror. E agora? No emprego, deprimida? Sair connosco, deprimida? Pode não se rir das piadas idiotas do Carlos. Já não há harmonia no nosso jantar. Ai Jesus. Que diabo, a felicidade não é uma linha recta.

11 comments:

Recantos e Pensamentos said...

Adorei o seu texto! É isso mesmo, temos que parecer ótimos e felizes o tempo todo... Quando você não está bem, você fica isolado porque ninguém quer por perto alguém infeliz; porém, a vida e nossas emoções não seguem uma linha reta e harmônica, mas sim em altos e baixos! Bjos e Feliz Natal!!!

Martim said...

Muito obrigado. Faltou-me mesmo terminar com um Feliz Natal.bjos

Clara said...

mas n vivemos todos para a imagem?

bluesy traveler said...

Não sei o que é pior: se o estereotipo em si, se o facto de o aceitarmos sem pensar e questionar.

Martim said...

Concordo contigo, Clara. DAs vezes que nos encontrámso também provavelmente percebeste como a imagem é importante para mim. Sobretudo, as coisas bonitas. Mas uma coisa é integrar a imagem e o bom gosto num contexto de vida mais rico, outra é viver como uma peça de uma montra....

Clara said...

n sei. são faces da mesma moeda. há uma razão para uma certa imagem vender, outra não.

CCF said...

É muito mais linha curva :)
~CC~

_aifos_ said...

Passei por aqui e tenho de por os teus posts nos favoritos.

Adorei a forma e a clareza da expressão!

Eva said...

E se tens a ousadia de te sentir feliz (e demonstrá-lo)com a tua vida quando ela não encaixa no estereótipo?!
Quando tens tempo para ti e para os que te rodeiam embora não ganhes por aí além, quando te dás para lá de bem com um marido que não preenche os requisitos habituais, quando não tiveste crianças e o aceitaste sem depressões, quando o teu carro é aquele que adoras porque é lindo, hiperconfortável e razoavelmente seguro (apesar de pouco ecológico)e não um daqueles que todos os outros têm, quando adoras o teu T2e pensas que uma casa maior iria demorar muito tempo a ficar confortável porque para ti não existem "as mobílias na hora", "tapetes na hora", "quadros na hora" ..., quando fazes férias em sítios "estranhos" que ninguém conhece e não no Brasil, em Cuba, na República Dominicana e, lembrei-me por razões óbvias, quando dizes naturalmente que a viagem de núpcias foi mesmo a cirandar por Portugal???!!!

SPin said...

Diz-me a experiência que, muitas vezes, quem mais “reclama” de um sistema, é quem mais contribui para a sua reprodução.
Eu por mim consigo lidar com as pessoas reais, os seus defeitos efectivamente sem graça, a suas pequenas misérias, a sua bagagem tóxica, as suas depressões. Descodificar as humanas fragilidades que se escondem atrás de uma atitude ou de um gesto, as suas ridicularias. Assumir o outro como um todo, caleidoscópico, espesso, tri, tetra dimensional. Admirá-lo pelas qualidades e aceitar os defeitos, já que se fundem na mesma matriz. E achar que vale a pena tomá-lo como inteiro.
E o Martim, que não conheço mas que tomo a liberdade de interpelar, consegue lidar com o outro quando ele não lhe devolve uma imagem de publi-felicidade?

Martim said...

Spin, a pergunta é mesmo muito difícil. Posso dizer "touché". No fundo, estes posts são muitas vezes um olhar para nós próprias. Obrigado pelo comentário.

Eva, gostei muito das interrogações. São de uma pessoa feliz.

pessoas com extremo bom gosto