12.16.2009

Sozinho, mesmo sozinho

O estado de “sozinho” pode gerar um misto de encantamento e embriaguez.

Falo do estado de “sozinho, mesmo sozinho”.Não me refiro ao estado “sozinho com pontas soltas”. Com coisas por resolver, que vão e vêm. Isso não é estar sozinho. É a pior coisa que há. Essas pontas dão-nos muito trabalho, a tentar atá-las ou desatá-las. Por ali nos consumimos, sem glória nem proveito duradouro. Ficamos focados na ponta e desfocados do que nos rodeia. Perdemos o bom que circula à nossa volta.

Acho que há cinco anos que não estava sozinho, mesmo sozinho. Tudo começa com uma decisão racional. E com um grito dado a nós mesmos. “Haja dignidade, pá !”, por exemplo. Dignidade para não magoar mais quem gostamos muito, mas não o suficiente. Ou dignidade para nos recusarmos a ser mais magoados por quem não gosta o suficiente de nós. Ou então, se for esse o caso, berramos “esta gaja é uma pulha. Não lhe vou perdoar mesmo”. Inscrevemos no nosso cérebro esse mal todo e com ele vacinamos o coração. Inicialmente custa estar sozinho, mesmo sozinho. Mas depois, aos poucos, vamos começando a saborear-nos. Há quanto tempo não nos saboreávamos, é a pergunta que surge à nossa frente. Deixamos de ter “dates”. Começa a ser natural chegar sexta à noite sem nada combinado. Ou sem a pressão de combinar algo. Para marcar espaço.De súbito, tudo se torna simples. Os amigos deixam de dizer “podes trazer alguém” e dizem apenas “vem”. Começamos a sentir um imenso poder. O poder de saber que não dependemos de ninguém. Começamos a ver a beleza à nossa volta. O nosso humor torna-se mais acutilante. Deixamo-nos de merdas. Sentimo-nos disponíveis para o que de novo aí vier. Deixamos de depender do passado. Deixamos de estar à espera e passamos a ter esperança a sério.Podemos vestir sem receios aqueles boxer anti-sexy, mas tão confortáveis, sem receio de que não possamos estar à altura das circunstâncias, porque sabemos que não vai haver circunstâncias dessas.

Nesta quadra de presentes, o sozinho, mesmo sozinho foi o melhor que pude oferecer a mim mesmo. E sorrio, porque amanhã à noite terei a sorte de estar a admirar as iluminações de Natal nos Champs Elysées. Como o ano passado. Como em todos os últimos anos.

27 comments:

M Isabel G said...

Parabéns. Excelente post. Se me permite, tente este registo um pouco mais confessional e talvez por isso, mais delicado. Onde começa a ficção, isso será sua propriedade, o que não deixa de ser confortável.

Martim said...

Muito obrigado pelas suas palavras. Geralmente escrevo sem me levar minimamente a sério e sem um "level agreement" implícito comigo mesmo.

M Isabel G said...

Dois Natais que já passei em Paris e por más razões. Mas as iluminações dos Campos Elíseos são lindas. Anda imensa gente na rua. O frio é mesmo assim. De "level agreements" nada percebo, mas admiro-lhe a honestidade.

Em Bicos de Pés said...

Marquei este blog nos favoritos ontem, acho. Nem sei como vim cá ter. E hoje estava a ler estas linhas e pensei assim: bolas, é isto mesmo que vou querer escrever um dia destes. Tal e qual. Bom, excluindo a parte dos boxers, que não uso. ;)

Clara said...

em bicos de pés, também eu. tirando que já me senti assim e depois passou, mas é uma coisa que vem e volta.

CCF said...

Sei bem como é, e quanto é bom! Afinal tão bom quanto o seu contrário, triste é quem vive apenas a vida numa única modulação.
Bom Natal por Paris.
~CC~

Em Bicos de Pés said...

Clara, enquanto vai e volta "aprende-se" mais sobre o estado de estar "sozinha, mesmo sozinha". Digo eu que quando volta não há-de ser tão difícil... (se é que te percebi) :)

Clara said...

o meu vai e volta era perfeitamente mental, que estou sozinha há anos.

Pedro Lopes said...

pleno acordo

R.L. said...

Nunca estive tanto tempo sozinha, mas sei estar sozinha. Preciso. Valorizo isso. Preciso.
Estar sozinho é aprendermos a gostar de nós pelo que sempre fomos e realmente somos e não do nosso reflexo no outro. Do reflexo do outro em nós. É saber que a felicidade passa somente e apenas pelas nossas mãos, pela nossa vida, pelo que quisermos, sem ter nenhum fio preso a uma mão que possa alterar isso.
E estar sozinho, em última análise, prepara-nos imenso a saber estar com alguém.

bluesy traveler said...

Straight to the point. Gostei mesmo muito porque (também) me revejo nestas palavras.

Abbatoir Blues

joão amaro correia said...

martim, martim.

we'll always have paris.
[e a pç. do pequeno-almoço]

mas às vezes custa.
a clara explica.

joão amaro correia said...

estava ali a fumar um cigarro e a pensar se não daremos demasiada importância à nossa solidão.

j

Clara said...

às vezes sim. outras não [eu]. às vezes gosto. outras não. e do outro lado era igual. é impossível.

Sara said...

Uma das coisas que mais aprecio neste estado é a ausência de expectativas, nossas e do outro. Esta ausência é, para mim, uma forma de liberdade.

Martim said...

João, este post não é sobre a solidão. É antes sobre a libertação das merdas inconsequentes em que os nossos impulsos mais imediatos ou os nossos receios mais profundos nos metem.
paris estava cheia de neve. Linda. A pç do pequeno almoço é já amanhã.
Abraço

Calíope said...

Vim cá parar por acaso e gostei imenso deste post. Identifico-me com grande parte dele.

Sofia said...

Sozinha, mesmo sozinha tb foi o presente que me ofereci este Natal.

Estupidamente já me tinha esquecido do bom que é sentir-me INTEIRA.

Clara said...

Sofia, gostei muito, é isso mesmo. sozinha = inteira, não = a pessoa que ainda está incompleta por n ter a sua cara metade como nos filmes e nas séries manhosas.

Dive said...

Genial.

Alexandra said...

Gostei tanto desde post, não podia deixar de comentar..
Dar o grito ou não?

izzie said...

Martim... vim cá para em "estado deambulatório".

Gostei. Porque concordo... mas mais que isso, pela coragem.
O grito, o poder, o "nós mesmos...".

Um beijinho,

_aifos_ said...

Potente!
Parabens!

Mac said...

É mesmo isto que quero! Só com dois grandes pormenores ;), mas é mesmo isto que quero!

SPin said...

Muito bom.

Anonymous said...

sim, sozinha, assim, como dizes, sem pontas. que liberdade! quanto tempo durará? escreves muito bem, Martim. é difícil parafrasear-te. é mais fácil quase citar-te. obrigada

Bluebluesky said...

Haja forças para desatar de uma vez as pontas soltas e saborear essa verdadeira solidão, finalmente, sem me parecer demasiado amarga, é o que peço...
Bom post.

pessoas com extremo bom gosto