Nem era tanto assim, já desconfiava.
Que tudo passa, como uma onda (mesmo aquelas grandes, os tsunamis, também eles passam e acabam numa espuminha que vem morrer aos nossos pés). O tempo faz com que todas as memórias se esbatam em tons pasteis, eu nunca gostei de tons pasteis, de coisas mornas a morrer aos nossos pés. Aquilo que contigo aprendi, porém, era isso que gostava de guardar em mim, a paz, a calma, a memória do que nunca poderíamos ter (nunca vou saber se quererias ter, e parece-me mesmo que nem tu saberás) e do que isso provocou em mim nesses dias em que escrevi o texto.
E nem mesmo isso sei se consigo. As coisas à minha volta, palavras, pessoas, imagens, tudo isso me afasta dessa sensação por muito que me esforce para a guardar. A normalidade, por oposição à santidade é sempre um apelo demasiado forte. Ou sou eu tão demasiado normal, real, carnal que não me consigo aproximar dessa sensação do que por mais do que uns momentos.
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9.26.2007
9.18.2007
Por vezes
quando escrevo posts como este, imagino que algumas pessoas possam lê-lo e, vaidosamente, imaginar que se refere a elas. Se algures no tempo hesitei em publicá-los por causa disto, rapidamente esta hesitação se transformou num encolher de ombros, que responsabilidade tenho sobre a imaginação dos outros?
Ainda bem para eles, se pensarem, ficam mais contentinhos da vida.
Certeza, certeza, tenho de que a pessoa a quem são dirigidos não o lerá e que, caso o fizesse, não imaginaria que seriam para ele. Isto sim me dá vontade de pontapear qualquer coisa pelo caminho.
Ainda bem para eles, se pensarem, ficam mais contentinhos da vida.
Certeza, certeza, tenho de que a pessoa a quem são dirigidos não o lerá e que, caso o fizesse, não imaginaria que seriam para ele. Isto sim me dá vontade de pontapear qualquer coisa pelo caminho.
9.06.2007
Enquanto a saudade
se dissipa nesses pequenos gestos indiferentes e diários, no barrar da manteiga no pão, no apanhar a roupa, no pegar nele ao colo porque chora, no atender do telefone. Enquanto isso, sei que não te vou esquecer nunca.
E não apenas porque não posso, mas até mesmo porque não quero.
E agora sim, é a primeira vez que tal acontece.
E não apenas porque não posso, mas até mesmo porque não quero.
E agora sim, é a primeira vez que tal acontece.
9.01.2007
A coisa (III)
Depois destas duas coisas, tinha que vir a terceira (ou não, mas vá).
De vez em quando acontecem, essas coisas. Sem razão aparente, talvez, como disse a Margarida, elas sejam um propósito em si mesmas.
Ao fim de um certo tempo habituámo-nos a viver com ela e não há já sequer uma ponta de angústia ligada à coisa. Ela é.
Assim como é, perfeita, intocável, imutável. É assim porque não vive na realidade, existe apenas como uma metáfora, num mundo paralelo ao real e só aí ela pode ser como é, ideal. Um dia trazida à luz, efectivada, ela tornar-se-ia banal, corrompida, cheia de pequenos buracos como o são todas as coisas. Assim como está, imaginária, não causa angústias e também não traz grandes alegrias, é um facto. Mas assim foi ela desde sempre, assim concebida e, se algures no passado isso me enraiveceu, entristeceu, agora só me causa alegrias.
Bendito o dia em que até as coisas que não posso ter me causam alegria.
PS: Durante o tempo que mediou o ter escrito o post (no bloquinho) e a tê-lo publicado aqui (hoje), a coisa, sem que eu sobre ela tivesse qualquer espécie de controlo, virou-se, transmutou-se, transferiu-se para outra coisa. Em tudo semelhante. Em tudo diferente. Ainda assim o post manteve-se válido, em tudo absolutamente igual, talvez as minhas palavras sirvam afinal todas as coisas e as submetam ao que escrevo. Ou então são as coisas que me aparecem sob estas formas como que a indicar-me algo, nada de muito místico, apenas o caminho natural a seguir que tantas e tantas vezes pedi a Deus para me indicar.
Adenda: afinal é mesmo a quarta vez que falo na coisa
De vez em quando acontecem, essas coisas. Sem razão aparente, talvez, como disse a Margarida, elas sejam um propósito em si mesmas.
Ao fim de um certo tempo habituámo-nos a viver com ela e não há já sequer uma ponta de angústia ligada à coisa. Ela é.
Assim como é, perfeita, intocável, imutável. É assim porque não vive na realidade, existe apenas como uma metáfora, num mundo paralelo ao real e só aí ela pode ser como é, ideal. Um dia trazida à luz, efectivada, ela tornar-se-ia banal, corrompida, cheia de pequenos buracos como o são todas as coisas. Assim como está, imaginária, não causa angústias e também não traz grandes alegrias, é um facto. Mas assim foi ela desde sempre, assim concebida e, se algures no passado isso me enraiveceu, entristeceu, agora só me causa alegrias.
Bendito o dia em que até as coisas que não posso ter me causam alegria.
PS: Durante o tempo que mediou o ter escrito o post (no bloquinho) e a tê-lo publicado aqui (hoje), a coisa, sem que eu sobre ela tivesse qualquer espécie de controlo, virou-se, transmutou-se, transferiu-se para outra coisa. Em tudo semelhante. Em tudo diferente. Ainda assim o post manteve-se válido, em tudo absolutamente igual, talvez as minhas palavras sirvam afinal todas as coisas e as submetam ao que escrevo. Ou então são as coisas que me aparecem sob estas formas como que a indicar-me algo, nada de muito místico, apenas o caminho natural a seguir que tantas e tantas vezes pedi a Deus para me indicar.
Adenda: afinal é mesmo a quarta vez que falo na coisa
7.16.2007
De vez em quando
ficamos com qualquer coisa atravessada. Oh, somos adultos, vivemos diariamente com coisas atravessadas, sabemos que é normal viver com um bocadinho de sofrimento dentro de nós (como é viver com um bocadinho de alegria, de tédio, de entusiasmo e por aí fora). Mas.
De vez em quando há umas coisas que ficam mais atravessadas do que outras. Não sei porque se insinuam perfeitamente fora de contexto. Porque aparecem quando o espírito está desocupado, ou ouvimos uma música, um cheiro, uma voz. Mas.
Mesmo sabendo muito bem que essa coisa (vontade? Desejo? Coisa.) não tem hipóteses de concretização, aparece-nos e vamos rolando, mastigando como um rebuçado doce, um bocado amargo, algo picante, rolando mesmo que não vá passar disso mesmo, um rebuçado que deixa um sabor a "o que poderia ser" na boca, nada de grandes mágoas. Mas.
Talvez esse rebuçado sirva no fundo algum propósito, algo um bocadinho oculto, é bom termos partes de nós que os outros não conhecem, que não nos apetece explicar. Ou então não, não serve para nada nem tem qualquer forma de intenção, limita-se a acontecer, a poisar devagar, a entardecer (Era a tarde mais longa de todas as tardes que me acontecia/Eu esperava por ti, tu não vinhas, tardavas e eu entardecia*).
*do poema do Ary dos Santos que conheci numa música do Carlos do Carmo e é lindo, lindo o poema. Resto aqui.
De vez em quando há umas coisas que ficam mais atravessadas do que outras. Não sei porque se insinuam perfeitamente fora de contexto. Porque aparecem quando o espírito está desocupado, ou ouvimos uma música, um cheiro, uma voz. Mas.
Mesmo sabendo muito bem que essa coisa (vontade? Desejo? Coisa.) não tem hipóteses de concretização, aparece-nos e vamos rolando, mastigando como um rebuçado doce, um bocado amargo, algo picante, rolando mesmo que não vá passar disso mesmo, um rebuçado que deixa um sabor a "o que poderia ser" na boca, nada de grandes mágoas. Mas.
Talvez esse rebuçado sirva no fundo algum propósito, algo um bocadinho oculto, é bom termos partes de nós que os outros não conhecem, que não nos apetece explicar. Ou então não, não serve para nada nem tem qualquer forma de intenção, limita-se a acontecer, a poisar devagar, a entardecer (Era a tarde mais longa de todas as tardes que me acontecia/Eu esperava por ti, tu não vinhas, tardavas e eu entardecia*).
*do poema do Ary dos Santos que conheci numa música do Carlos do Carmo e é lindo, lindo o poema. Resto aqui.
6.21.2007
Acho mesmo
que a coisa já está praticamente expulsa. Foi-se da mesma forma que chegou, sem gritos nem alaridos, de mansinho como uma porta a fechar a meio da noite.
Eu sabia que seria rápido, não tenho paciência nem para prolongar os sofrimentos vãos.
E o melhor de tudo é que nem dessa mínima coisa sinto falta e portanto é só seguir caminho, o que aliás nunca deixei de fazer.
Eu sabia que seria rápido, não tenho paciência nem para prolongar os sofrimentos vãos.
E o melhor de tudo é que nem dessa mínima coisa sinto falta e portanto é só seguir caminho, o que aliás nunca deixei de fazer.
6.11.2007
Ainda o cansaço
consome-me sem tréguas, sem saciedade possível. E fico na dúvida se será cansaço se é da ponta de tristeza pela coisa.
A coisa apareceu sem se saber muito bem como, e sem se fazer sentir propriamente (como faria uma corrente de água que desce na torneira, inundando-nos). A coisa limitou-se intrometer-se nos intervalos em que me apanhou desprevenida. Sem se impor nem fazer por isso, a coisa nem sequer marcou presença no meu espírito, não enovelou os meus pensamentos, não me obrigou a pensar nela a toda a hora.
E no entanto, insidiosamente, foi preenchendo cada palavra minha, cada acto meu passou a ser torneado em função dela e para ela, sem que ela sequer se apercebesse e nem eu tomasse plena consciência disso (à maneira de uma brisa que passa e refresca sem que a notemos, sentimo-nos melhor mas nem por isso pensamos nessa leve corrente de ar que nos refrescou, ela não se forma no nosso pensamento nem ganha contornos na nossa memória).
A coisa está aqui e eu sei-a, talvez causando-me cansaço e uma ponta de tristeza, mas vai sendo expulsa em pequenos actos, em mínimos exercícios de imaginação, talvez em meia-dúzia de lágrimas que possam vir a correr.
Ou não.
A coisa apareceu sem se saber muito bem como, e sem se fazer sentir propriamente (como faria uma corrente de água que desce na torneira, inundando-nos). A coisa limitou-se intrometer-se nos intervalos em que me apanhou desprevenida. Sem se impor nem fazer por isso, a coisa nem sequer marcou presença no meu espírito, não enovelou os meus pensamentos, não me obrigou a pensar nela a toda a hora.
E no entanto, insidiosamente, foi preenchendo cada palavra minha, cada acto meu passou a ser torneado em função dela e para ela, sem que ela sequer se apercebesse e nem eu tomasse plena consciência disso (à maneira de uma brisa que passa e refresca sem que a notemos, sentimo-nos melhor mas nem por isso pensamos nessa leve corrente de ar que nos refrescou, ela não se forma no nosso pensamento nem ganha contornos na nossa memória).
A coisa está aqui e eu sei-a, talvez causando-me cansaço e uma ponta de tristeza, mas vai sendo expulsa em pequenos actos, em mínimos exercícios de imaginação, talvez em meia-dúzia de lágrimas que possam vir a correr.
Ou não.
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