7.16.2007

De vez em quando

ficamos com qualquer coisa atravessada. Oh, somos adultos, vivemos diariamente com coisas atravessadas, sabemos que é normal viver com um bocadinho de sofrimento dentro de nós (como é viver com um bocadinho de alegria, de tédio, de entusiasmo e por aí fora). Mas.
De vez em quando há umas coisas que ficam mais atravessadas do que outras. Não sei porque se insinuam perfeitamente fora de contexto. Porque aparecem quando o espírito está desocupado, ou ouvimos uma música, um cheiro, uma voz. Mas.
Mesmo sabendo muito bem que essa coisa (vontade? Desejo? Coisa.) não tem hipóteses de concretização, aparece-nos e vamos rolando, mastigando como um rebuçado doce, um bocado amargo, algo picante, rolando mesmo que não vá passar disso mesmo, um rebuçado que deixa um sabor a "o que poderia ser" na boca, nada de grandes mágoas. Mas.
Talvez esse rebuçado sirva no fundo algum propósito, algo um bocadinho oculto, é bom termos partes de nós que os outros não conhecem, que não nos apetece explicar. Ou então não, não serve para nada nem tem qualquer forma de intenção, limita-se a acontecer, a poisar devagar, a entardecer (Era a tarde mais longa de todas as tardes que me acontecia/Eu esperava por ti, tu não vinhas, tardavas e eu entardecia*).

*do poema do Ary dos Santos que conheci numa música do Carlos do Carmo e é lindo, lindo o poema. Resto aqui.

2 comments:

Zé said...

mas.

o importante é que nos saibamos interrogar. e isso é saber entardecer. e saber entardecer não é caminhar para a noite, é tornar mais ténues e macias as cores que não fazem falta à vida (é um cota quem te o diz :) )

um beijo Clara

Margarida Atheling said...

Mas... essa coisa tem uma existência, mesmo que não seja na forma que supomos que lhe seria própria.
Ela existe assim, e parece-me que a sua simples existência assim com a forma difusa que tem, já é um propósito em si mesmo.

Bjs!

pessoas com extremo bom gosto