6.23.2007

Da sociedade machista

Aqui há muitos anos (quantos? mais de 20, menos de 30, não sei precisar com maior exactidão) o meu avô recebeu em casa um amigo australiano. Era um amigo de há muitos anos que estava a dar a volta ao mundo e, para surpresa do meu avô e do meu pai, apareceu acompanhado da filha recém-nascida. A filha tinha nascido e ele aproveitou para fazer uma muito desejada volta ao mundo durante os meses da licença de paternidade, tendo a mulher ficado na Austrália a trabalhar. Lá como cá a licença de maternidade/paternidade pode ser usufruída por qualquer membro do casal ou mesmo partilhada por ambos.
Contaram-me ambos esta história em simultâneo, o meu avô rematando a coisa com um "lá é normalíssimo e noutros países também, não é como cá" amargurado como de costume com o atraso da nossa sociedade (claro que ele próprio nunca mudou uma fralda ou embalou um bebé, mas isso da teoria à prática já se sabe, é um mundo).
Quantos anos (if ever) demoraremos a chegar a este ponto?


(este post foi inspirado neste e neste, embora não pareça, está directamente relacionado)

17 comments:

Margarida Atheling said...

Que vivemos numa sociedade machista é uma verdade indesmentível. Que é uma pena e que muitas coisas deviam ser mudadas, também.

Mas, sinceramente, não me vejo a fazer o que a mulher do amigo do teu avô fez. Não é que a censure, mas eu não faria! Mesmo!

Creio que mulher e homem se igualam em valor e dignidade. Seria justo e desejável que se igualassem também em direitos.
Mas não creio que isso passe por as mulheres passarem a fazer o que é mais natural ao homens e vice-versa.
Somos, naturalmente, diferentes e complementares (é por isso que gostamos uns dos outros, eu acho. porque nos completamos), e essas diferenças não nos desvalorizam.
Não sou boa a rachar lenha para a lareira, mas farei outras coisas melhor.

Claro que em relação aos filhos acho que a responsabilidade é dos dois. Desde o início, ou desde antes dele.
Mesmo que na prática o planeamento famíliar passe mais por nós, mulheres, a decisão, a responsabilidade, até o cuidado de nos lembrar no caso de nos podermos esquecer, deve ser deles também.
A decisão de ter ou evitar um filho deve sempre ser dos dois; do mesmo modo a responsabilidade de o criar, cuidar e educar também.
Mas eu seria incapaz de mandar uma filha recém-nascida, viajar com o pai para fora do país, e seguir a minha vidinha normalmente. E se não a censuro por isso, também não me considero "quadrada" por ser assim.
Cada pessoa é um caso, mesmo.

Bjs!

Clara said...

Pois, Margarida (eu sou capaz de me imaginar).

Margarida Atheling said...

Eu também sou capaz de te imaginar. És bem mais desembaraçada do que eu.
São feitios diferentes, mas é mesmo só isso.

Agora, na questão de igualdade de direitos (e obrigações), estamos absolutamente de acordo de certeza.
Eu não o faria porque não quero, e é esse direito de querer ou não querer, que é o ponto fulcral do teu post, parece-me.

Clara said...

é, mas ainda assim é um direito que só assiste a algumas (escolha), porque a maioria leva mesmo é com a obrigação (e a lei é 100% machista, claro, ou não fossem os legisladores...homens).

Leão da Lezíria said...

Noutro registo, a mim fascinava-me (nos tempos idos em que fiz inter-rail anos a fio) os jovens casais com os filhos às costas, viajando pela Europa. Pensei que gostaria de o fazer também, mais tarde. E fiz...

(Já agora, no último ano três tipos da minha equipa gozaram no início da maternidade os quinze dias que, a juntar aos outros cinco, têm direito. Saiu-me do corpo, mas incentivei-os desde o início a que o fizessem. E deu-me cozo contribuir para que fizessem a coisa certa.

Clara said...

Olhe Leão, e o padrinho do meu filho que gozou a licença de paternidade quando lhe nasceu o filho e ainda mais um mês de férias? (foram 4 meses e meio, parece-me). Acho que o mais complicado para ele foi ter que ultrapassar o que os colegas diziam dele nas costas (mas foi um caso de falta de opção, a mulher não tinha direito à licença).

Anonymous said...

Eu não digo que não o faria.
Depende da conjugação de alguns factores.
E que a Margarida não faria nem era preciso dizer, que eu conheço-a e sei que não, para sorte da outra parte na questão.
Mas lá que a sociedade e a lei são machistas são. E como tu dizes, se a Margarida, não quer porque não quer porque é assim muito maternal por natureza, para a maioria das mulheres não há cá quereres, e se não tiverem essa vontade toda de estar sempre com o bebé e entenderem deixar essa obrigação um bocado ao pai, não têm sorte nenhuma.
Já foi pior, mas ser mulher ainda é muito complicado!

Beijos

Catarina

Margarida Atheling said...

Na verdade, eu não conheço bem a lei. Imaginava que fosse igualitária.
Não é possível que a "licença de maternidade" seja usufruida, indiferentemente, pelo pai ou pela mãe?

Na questão das mentalidades a realidade sei bem que é outra.

Clara said...

Margarida, tirando os primeiros 15 dias que são obrigatoriamente gozados pela mãe, o resto pode ser indiferentemente por um ou por outro. Falava noutra coisa, está claro, não nessa licença.

patrícia said...

tens razão Clara, se os homens não delegassem o trabalho (quase)todo nas mães se calhar a coisa não acontecia assim.

claudia said...

estamos a anos luz do equilibrio. a cultura é a principal responsável. eu não quero corresponder a leis que disputam direitos e obrigações mas a vontades e prazeres. para mim, no que diz respeito a família, tudo passa pelo prazer que isso me dá e aos que amo.
para além disso, dispenso as leis. Dispensei até hoje e nunca me arrependi.
falo por mim, claro!!

Pitx said...

vocês têm a certeza que a culpa é mesmo toda nossa?

se eu escrever no meu blog: "estava ali sentado no sofá, de comendo na mão a passar canais à espera que o jantar ficasse pronto, quando...", acreditem que recebo ou dois ou três comentários a criticar a coisa ou 5 maisl a chamarem-me machista.

se eu escrever no meu blog: "estava a engomar com a televisão assim, com o som baixinho porque a minha mulher já dormia..." recebo comments a dizerem coisas como, "tu engomas?????"

ou seja, enquanto ambas as situações não forem coisas naturais para vocês mulheres e para nós homens, alguma coisa estará a correr mal. acreditem.

eu sou péssimo a matemática porque tive ou péssimos professores ou tive hiatos enormes (no 7º ano nunca tive professor, sequer) sem ter sequer aulas. a minha vida inteira nunca precisei de mexer uma palha em casa, porque a minha mãe se chegava sempre à frente: quer fosse com a comida, quer fosse com a roupa, quer fosse com outra coisa qualquer. nunca, mas nunca incutiu espírito de lavor dito "feminino" a mim. não esperem numa situação destas que nós tenhamos iniciativa (que até tinha) para contornar a coisa. ela fazia assim, porque sim!

não comecem vocês a contrariar a educação que os vossos homens receberam das vossas mãezinhas e depois não se queixem.

não comecem desde cedo a educar os vossos filhos a passar um pano de pó pelos móveis ou a educar as vossas meninas a mudar pneus e vão ver no que se metem.

ah, a propósito. este post está bestial.

Clara said...

Pitx, aqui não atribuí culpas a machos alguns. Disse "sociedade" e quando o disse estava a englobar homens e mulheres. Tenho perfeita noção de que se queremos mudar algo começa por ser na educação dos nossos filhos e filhas. Tenho um de cada género que não diferencio no tratamento que dou, mas tenho perfeita noção que fui privilegiada porque em minha casa sempre vi o meu pai (o homem mais macho que conheço) fazer as tarefas que fossem preciso...

Ah, e o meu (ex)marido tb faria o que eu lhe pedisse, a questão é que nem sequer passava tempo suficiente em casa para fazer fosse o que fosse.

Aquilo no rainha com os profs. de matemática era mesmo uma desgraça, a mim foi no 10º que começaram a descambar.

Pitx said...

ó clara, o meu comment não era contra ti, era contra tudo. até, como viste, contra a minha mãe foi.

o que eu acho é que as mulheres têm tanta culpa na coisa como os homens, bolas.

comecem a colocar-lhe as malas à porta de casa e vão ver se eles não piam fininho.

vale uma aposta?

agora se ficarem à espera que tenhamos noção, por nossa própria inicativa, das necessidades que a casa tem, podem esperar sentadas. acreditem, não fomos educados assim.

quanto ao meu post sobre os avós, desisto. ou eu não me fiz entender, ou me fiz entender e vocês (vocês mulheres. não necessariamente, tu, ok?) mandaram para canto ou me fiz entender, vocês continuam a achar que se deve dar primazia à mãe em relação à sogra e então não há nada a fazer.

Costinhas said...

(fugindo um pouco à lógica - ou talvez não - do post e do que o motivou)

Sabes uma coisa, eu não me sinto capaz de ceder nem um dia da licença de maternidade. Pudesse eu e ficaria ainda mais tempo com eles. Para mim o ideal seria o primeiro ano completo.

Acho mal é que a licença de paternidade não seja maior, isso sim.

Os motivos são mais que muitos e era uma seca estar para aqui a nomeá-los.

E estamos a anos-luz em tanta coisa dos países civilizados, que este ponto é simplesmente apenas mais um.

beijos

Clara said...

Aquilo que obviamente não passou para ninguém era que acho tão justo um bebé ficar com a mãe como com o pai.

Costinhas, quando dizes "ceder" é porque consideras de alguma forma que a licença é tua por direito próprio, mas ela não é mais tua do que do pai.

Costinhas said...

É verdade. Mas eu tenho motivos muito válidos (pelo menos para mim) que suportam esta a minha convicção.

Mas depois volto, que a esta hora, já estou para lá do aceitável a nível de expor pontos de vista.

beijinhos

pessoas com extremo bom gosto